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More than words.

More than words.

(One-Shot) - 4 AM

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Tinha apenas dez anos de idade quando tudo começou. Os meus pais nunca se tinham dado muito bem, pelo menos desde que eu me consigo lembrar, as discussões eram imensas e por vezes via o meu pai bater na minha mãe. Apesar de a querer proteger, eu era apenas uma criança que morria de medo dele. Sabia lá eu o que ele me poderia fazer quando estava naquele estado, completamente embriagado e fora de si. O problema era o álcool, ele saia e chegava já muito tarde a casa, completamente bêbado. Era horrível, batia na minha mãe e eu apenas me limitava a ficar fechada no quarto a ouvir os gritos de dor dela. As coisas ficaram piores quando uma noite ele apareceu no meu quarto, eu não entendi o que ele queria ou o que ele pretendia fazer, até ele começar a passar as suas enormes mãos no meu frágil e pequeno corpo. Ele violou-me. Não uma, duas, ou três vezes, mas sim quatro. Tinha contado todas elas. Não houve uma quinta vez, porque quando a minha mãe descobriu o que ele me estava a fazer, descontrolou-se de tal maneira que acabou por matá-lo com as suas próprias mãos. A minha mãe matou o meu pai, mesmo em frente aos meus olhos.

A minha vida tornou-se um completo pesadelo quando a minha mãe acabou por ser presa. Apesar de ambas dizermos que aquilo tinha sido em nossa defesa, ninguém acreditava em nós. Porquê? Porque é que não a acreditavam nas nossas palavras? Porque é que faziam a minha mãe parecer culpada quando o único culpado no meio daquilo tudo era o meu pai? Era tudo tão injusto.

Fiquei praticamente sozinha no mundo, acabando por ir parar a uma instituição para crianças orfãs. Eu não era orfã, mas a minha mãe continuava presa e eu continuava sozinha. Ainda hoje lá estou a viver, a minha vida é uma autêntica porcaria e acabei por me começar a dar com as pessoas mais rebeldes daquela cidade, mais propriamente aquele género de pessoas às quais chamamos de más companhias. Andavam todos metidos na droga, eu segui os seus passos e acabei por me drogar algumas vezes. Fazia-me esquecer todas as coisas más da minha vida e era mesmo disso que eu precisava. Algumas raparigas com quem eu me dava, começaram a prostituir-se e bem, elas queriam que eu fizesse o mesmo. Diziam que ganharia bastante dinheiro e com ele poderia sair daquela instituição e ajudar depois a minha mãe. Mas eu sabia que não seria assim tão fácil.

Os relógio marcava agora as quatro horas da manhã, eu tinha passado parte da noite a injectar não sei que tipo de drogas em mim, até porque não me sentia como das outras vezes, sentia-me mal e sentia a minha barriga a andar às voltas como se a qualquer momento eu fosse vomitar. A rua à minha frente era demasiado escura e eu mal via, tropeçando várias vezes nos meus próprios pés. Senti de repente alguém puxar-me pelo braço, fazendo-me quase cair no chão e logo depois um homem, bem mais alto e muito mais velho que eu encostou-me contra uma parede. Logo imagens do que o meu pai me tinha feito, surgiram na minha mente e eu comecei aos gritos, cheia de medo de aquilo se repetir. Nunca mais tinha deixado que ninguém me tocasse, tinha medo que me magoassem e me fizessem mal. Todos os homens eram iguais, na minha opinião.

Gritei o mais alto que conseguia, mesmo quando ele me bateu no rosto e senti o sabor do sangue na minha boca. As lágrimas começaram a cair a fio pelo meu rosto quando ele tentou meter as suas enormes mãos no interior das minhas roupas. Esbracejei, gritando alto apesar de não adiantar de nada. Sentia-me em pânico e nem o facto de estar sobre o efeito de drogas, me fazia ter mais "calma". Tinha tanto e tanto medo do que ele me iria fazer e o pior de tudo é que eu tinha a certeza que não conseguiria pará-lo, ele era muito mais forte do que eu.

Ajudem-me! – gritei, por entre soluços.

Uma das suas mãos voltou a embater no meu rosto, com mais força do que a necessária. Cuspi o sangue que estava no interior da minha boca e senti o sabor das lágrimas chegar à mesma. Senti-me quase sem forças para continuar a lutar contra ele, as minhas pernas estavam bambas como se eu fosse cair a qualquer momento.

No instante seguinte, aquele enorme corpo foi arrancado da beira do meu. Deslizei pela parede até chegar ao chão, e ficar sentada sobre o mesmo. Os meus olhos, repletos de lágrimas focaram-se na pessoa que estava agora à minha frente, a bater naquele homem. Logo o reconheci como sendo Noah, um dos meus amigos, quer dizer, não sei se o posso considerar isso, visto que poucas foram as vezes em que trocamos algumas palavras. Ele era demasiado misterioso, mantendo-se sempre um pouco à parte de tudo o que o rodeava.

O rapaz que me tinha vindo ajudar, era menos encorpado e mais baixo do que o homem, contudo, a sua força era imensa. Talvez houvesse alguma adrenalina à mistura, enquanto ele pontapeava o corpo do mais velho, agora deitado no chão, a pedir por tudo para que ele parasse. Porém, as suas palavras eram ignoradas, e Noah apenas parou de lhe bater quando conseguiu deixar aquele homem inconsciente.

Seguidamente, ele virou-se na minha direcção, podia ver o suor que estava presente no seu rosto e a sua respiração, agora completamente descompassada devido ao que ele havia feito.

- Já devias saber que não podes andar sozinha, à noite. – proferiu, enquanto se ia aproximando de mim.

Eu não conseguia parar de chorar, as lágrimas corriam a fio pelo meu rosto e o meu corpo tremia sem parar, ainda estava cheia de medo. Na minha cabeça ainda passavam imagens do que aquele homem ia fazer comigo. O que ele esteve prestes a fazer.

- Dakota… - ele murmurou, quando se baixou ao meu lado. Senti uma das suas mãos quentes no meu braço frio e, instintivamente, eu encolhi mais o meu corpo. – Não te vou fazer mal… está tudo bem agora. – ele falava de forma bastante calma, numa tentativa, talvez falhada, de me tentar acalmar. De me tentar fazer perceber que aquele homem não me iria fazer nada.

Ao ver que eu não ia dizer nada, creio que mesmo que tentasse eu não ia conseguir falar, vi-o retirar o telemóvel do bolso das suas calças. Ele marcou um número qualquer e uns segundos depois de encostar o telemóvel ao ouvido, quando ele começou a falar, eu percebi que estava a ligar para a polícia e a fazer uma queixa anónima.

- Vamos sair daqui. – ele disse após terminar a chamada. Guardou o telemóvel novamente e, como percebeu que eu não me iria aguentar de pé, pegou em mim ao colo, e virou costas àquele lugar, deixando o homem caído no chão.

 

Quando acordei na manhã seguinte, eu pouco me conseguia lembrar dos acontecimentos da noite anterior. As coisas não passavam de uma mancha indistinta na minha cabeça. Olhei em volta, vendo que estava deitada sobre um sofá, demasiado confortável, em comparação com o que eu tinha vindo a ser habituada. Um cheiro adocicado entranhava-se no meu nariz e uma mera recordação, da noite passada, me veio à memória.

 

Noah abriu a porta de um apartamento, demasiado quente em comparação com a rua. A minha barriga continuava num péssimo estado e, foi por isso mesmo, que eu me vi obrigada a falar, depois de ter ficado demasiado tempo sem conseguir proferir uma palavra que fosse.

- Preciso de vomitar.

No instante seguinte, já eu me encontrava numa casa de banho, a vomitar para a sanita que se encontrava à minha frente. Vomitei até mesmo quando não restava mais nada no meu estômago.

Assim que terminei, Noah ajudou-me a levantar, colocou-me em frente do lavatório, e só nesse instante eu vi o aspecto do meu rosto, quando me olhei ao espelho. O mesmo estava cheio de nódoas negras, meio escondidas pelo sangue. Olhando para as minhas mãos, vi também sangue nas mesmas. Abanei a cabeça, deixando depois que Noah me ajudasse a lavar-me.

 

Sentei-me no sofá, sentindo uma pequena tontura devido a tê-lo feito de forma um pouco rápida demais.

- Preparei algo para comeres. – a voz de Noah fez-se ouvir vinda da porta daquela divisão.

Deixei que os cantos dos meus lábios subissem num pequeno sorriso. – Não era necessário. – murmurei, a minha voz demasiado rouca devido aos acontecimentos da noite passada.

Ele encolheu os ombros e avançou por aquela divisão, sentou-se ao meu lado no sofá, e focou os seus olhos claros no meu rosto.

- Devias manter-te afastada desta vida, Dakota. Não consegues entender os perigos que se escondem por trás de cada esquina? Aquilo de ontem foi apenas uma pequena parte do que te pode acontecer. – ele abanou a cabeça e eu apenas engoli em seco. Sabia que ele tinha razão, mas era tarde demais para mim.

- Não dá. Eu não consigo… - sussurrei, sentindo ao mesmo tempo as lágrimas quererem chegar aos meus olhos. Engoli as mesmas, impedindo-me a mim própria de começar a chorar.

- Consegues sim. Basta quereres. – ele insistiu.

- A minha vida é uma merda. – sussurrei estas palavras, olhando também nos seus olhos.

Ele abanou a cabeça e pegou numa das minhas mãos. – É uma merda a partir do momento em que tu deixas que seja. A partir do momento em que desistes de lutar por algo melhor. Não podes baixar os braços apenas porque uma coisa te correu mal. Por muito infelizes e revoltados que nos sintamos com a vida que temos, não podemos deixar de lutar para conquistar uma vida melhor. Há sempre algo melhor à nossa espera, basta para isso nos mantermos focados.

Eu olhei melhor para ele, deixando os meus olhos memorizarem todas as suas feições. Aquelas suas palavras, não me deixavam de todo indiferente. Eu sabia que ele tinha razão, só que eu apenas me limitava a deixar-me levar pela vida e pelas suas desgraças.

Talvez estivesse na hora de mudar isso.

 

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